Arte popular mostra que a afetividade ganha cada vez mais espaço em projetos de interiores

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A profissional Flávia Roscoe explora a mescla entre o novo e o antigo, lançando mão de criações de designers e artistas consagrados - Jomar Bragança/DivulgaçãoA profissional Flávia Roscoe explora a mescla entre o novo e o antigo, lançando mão de criações de designers e artistas consagrados

Expressão de identidade. História esculpida em detalhes. Traços da memória de um povo, a profusão cultural de um lugar. Crenças, lendas, costumes, tradições. Intuitiva, a arte popular é o retrato mais fiel do modo de viver de quem nem sequer frequentou escolas na área, com suas alegrias e dificuldades do dia a dia. De grande reconhecimento estético e criativo, as peças são carregadas de afetividade, enraizadas por um sentido de pertencimento. Na decoração, caem bem em diferentes propostas para modelar arranjos inspiradores. Distinto do artesanato, que permite reproduções, nesse tipo de trabalho cada objeto é inigualável, e vem justamente daí seu encanto e significado, enquanto fruto do talento e da sensibilidade.

No projeto da designer de interiores Gislene Lopes, o leiaute oferece condições para que os artefatos se sobressaiam - Jomar Bragança/DivulgaçãoNo projeto da designer de interiores Gislene Lopes, o leiaute oferece condições para que os artefatos se sobressaiam

Entre pinturas, gravuras, esculturas e literatura, para a arquiteta Flávia Roscoe, a arte popular é extremamente rica, e interessante de aplicar nos ambientes principalmente diante de uma sociedade cada vez mais tecnológica e globalizada. “São artigos que remetem a raízes, a cultura. E hoje isso se torna mesmo uma necessidade – se sentir em casa e ter raízes”, diz. No espaço que concebeu para uma mostra em Belo Horizonte, no ano passado, a profissional explorou a mescla entre o novo e o antigo, lançando mão de criações de designers e artistas consagrados, explorando a arte contemporânea, ao lado de itens de arte popular, de onde nasceu um harmonioso diálogo que reforçou a convicção de estar pertencido. “A arte popular traz à tona a importância de valorizar o que é nosso”, acrescenta Flávia.

Os artigos de arte popular podem ser usados em vários cômodos da casa, conforme o estilo e o perfil do projeto e do cliente, mas, ainda assim, não são unanimidade, pondera a arquiteta e designer de interiores Gislene Lopes. Segundo ela, o leiaute deve ofertar condições para que os artefatos se sobressaiam. “Como são objetos coloridos, dão charme para a decoração. É um tipo de composição muito específica. Com harmonizações mais tradicionais, regionais, da arte popular surge uma atmosfera de aconchego, dotada de identidade. Geralmente são itens de família, contam uma história familiar”, salienta.

Acervo da colecionadora Priscila Freire tem cerca de 300 peças, 200 delas do Vale do Jequitinhonha - Priscila Freire/DivulgaçãoAcervo da colecionadora Priscila Freire tem cerca de 300 peças, 200 delas do Vale do Jequitinhonha

Priscila Freire, de 84 anos, há quatro décadas é colecionadora de arte popular. Seu acervo compreende um número próximo de 200 obras do Vale do Jequitinhonha, celeiro dessa produção em Minas Gerais, incluídas em um total de cerca de 300 peças. Outros locais de valorosa fabricação da arte popular no estado são o Vale do São Francisco, além de Ouro Preto, Mariana e Tiradentes e região. Para ela, cada objeto é único, não se repete, tem uma força artística absoluta, fascina e dá prazer de se ver. Priscila explica que a arte popular, na maioria das vezes, é feita por pessoas de locais inóspitos, de acesso complicado, onde não há, quase sempre, televisão, teatro, cinema, internet, nem mesmo jornal. “São artistas portadores de um espírito criativo muito voltado à terra, relacionados com as tradições da região onde estão, reproduzindo técnicas passadas de geração para geração. São donos de um imaginário criativo fora do comum”, salienta.

REFERÊNCIAS

Na origem da arte popular, estão as referências indígenas, ensina Priscila, como no conhecimento sobre os processos de cozimento do barro. Utilitários pouco a pouco se transformam em desenhos artísticos, sem perder a função, mas ganhando contornos, por exemplo, de figuras humanas ou animais, em uma busca incessante e instintiva pela beleza na construção do objeto. O trabalho ultrapassa fronteiras com obras apresentadas até em outros países. A colecionadora costuma emprestar itens do seu conjunto para museus e exposições. “É uma arte brasileira de qualidade excepcional. Mesmo sem técnica acadêmica, os artistas detêm uma maneira de ver fantasiosa. A arte popular é soberana – só existe aquela peça. É o espírito do povo. Cada região tem uma linguagem própria. É uma expressão tão completa que nos fala mais que uma obra erudita”.

Dono de uma galeria de arte contemporânea que funciona há 12 anos no Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, na Grande BH, Orlando Lemos também é apreciador da arte popular e tem uma coleção de praticamente 2 mil peças, que reuniu ao longo de 15 anos. Ele garimpa os objetos em diversas cidades do Brasil, procurando grandes nomes que tenham uma produção significativa. Diferente da arte contemporânea, conceitual, estudada, mestrada, doutorada, erudita e cheia de protocolos, a arte popular, esclarece, é autodidata, intuitiva, espontânea. “A arte popular vem de dentro. Fala sobre o entorno do lugar onde é feita, sua identidade e história. Representa a vida, o cotidiano, a memória, as angústias, as dificuldades e os desafios. Surge de uma necessidade de se expressar. Arte é arte, mas existem critérios que diferem esses dois universos”, compara.

Orlando lembra que a arte popular tem sido cada vez mais aceita e divulgada no Brasil e internacionalmente, com artistas conquistando importância e visibilidade em inúmeros países. Ele mesmo disponibiliza as obras para exposições e museus, e esporadicamente abre espaço na própria galeria para exibir seu acervo. “O retorno do público tem uma melhora crescente, as pessoas gostam de ver, querem ter em casa. As peças têm se tornado também elementos da decoração, gerando uma atmosfera rústica e, ao mesmo tempo, contemporânea, com um resultado super bonito. Se você coloca um objeto de arte popular perto de um quadro moderno terá uma composição que não existirá em nenhum outro lugar. Com um toque de brasilidade e mineiridade, são ambientes mais com a nossa cara”, declara Orlando.

GARIMPO

O casal André Marcos Malta e Priscila Costa está à frente da loja Brasileirinho, aberta há quase 10 anos em Tiradentes, a 190 quilômetros da capital. Em duas unidades na cidade, o foco é a cultura e a arte popular brasileira. Com cerca de 500 artistas populares na lista, eles oferecem diferentes linhas de objetos, que perpassam temas como cotidiano, folclore, religiosidade, fauna e flora, autorretrato e o imaginário, entre artigos em barro, madeira, pedra, material reciclado e fibras naturais. A seleção das peças é realizada em viagens pelo país – além de Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Ceará e Piauí, entre outros estados -, junto a colecionadores parceiros, e as obras com as quais trabalham integram museus e catálogos pelo mundo. São, por exemplo, vendedores de picolé, de algodão doce, bordadeiras, lavadeiras, rezadeiras, trabalhadores do campo, homens com pilão, mulheres caminhando, e ainda imagens de santos e anjos em estilo barroco, mesclando a tradição católica com figuras de orixás.

Na loja Brasileirinho, em Tiradentes, o foco do casal André Malta e Priscila Costa é a cultura e a arte popular brasileira, em uma rica lista de objetos - Loja Brasileirinho/DivulgaçãoNa loja Brasileirinho, em Tiradentes, o foco do casal André Malta e Priscila Costa é a cultura e a arte popular brasileira, em uma rica lista de objetos

“A arte popular é autoral, demonstra o que os artistas vivenciam, o que vêem e observam da vida, o que as outras pessoas transferem para eles, suas experiências. É o espelho do Brasil com um significado, uma palavra diferente. Quando se cria um objeto, ele se comunica”, diz André. A arte popular, continua, está em crescimento, ainda que não tenha vasta escala de produção. “Cada peça é exclusiva, sem interferência da globalização, mesmo que esse quadro tenha se alterado um pouco pela influência da internet. Muitos arquitetos compram para agregar em seus projetos. Esses objetos engrandecem e valorizam a composição do ambiente. A pessoa olha e logo se pergunta, quer saber o que tem por trás: que peça é essa, de onde vem? Essa é a pegada”, conta.

Fonte: lugarcerto.com.br

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